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Sábado, 24 de fevereiro de 2024

COLUNISTAS

Érica Favarin

A dançarina

07/12/2023 14h15 | Atualizada em 07/12/2023 20h36 | Por: Érica Favarin
Divulgação

Escuta-se um apito de trem. É mais uma Maria-Fumaça que chega à Estação de Tubarão trazendo pequenas cargas e grandes sonhos. O maior deles seria o de uma dançarina nativa de Sangão que deseja apresentar-se em grandes palcos pelo mundo, mas antes do estrelato, ela precisa começar em algum lugar menor, algo mais próximo de sua realidade, como a Cidade Azul de 1946.

Já nos primeiros passos fora do vagão, a heroína demonstra seu entusiasmo e gingado, o que causa estranhamento a alguns passantes. Todavia, a bela moça está encantada demais com os sons de um pandeiro pertencentes a um sambista e logo, ela aproxima-se da fonte sonora na batida.

“Que música boa, meu senhor!” - Seu tom de voz é alegre e doce.

O sambista devolve o elogio ao comentar a apresentação dela. O talento da heroína desperta a curiosidade do homem, o qual a pergunta o motivo de vir para Tubarão. A resposta dela é simples: recebeu uma carta de um tio para trabalhar em um clube da cidade intitulado 29 de abril. Complementou afirmando que não sabia ler, portanto, pediu para um rapaz conhecido de sua família e como diz ela, desses bem-estudado, para decifrar os desenhos manuscritos no papel. Contudo, havia um problema, a dançarina não sabe onde o local fica e ao perguntar para o sambista, ele revela também ser de fora, mais precisamente de Treviso e por isso, não pode tirar a dúvida dela, mas a aconselha a perguntar para outras pessoas na estação. A dica é rapidamente seguida pela moça que agradece a música.

Com ânimo e uma leve inquietação, a dançarina pede informações para um vendedor de laranja. Contudo, ele dá-lhe orientações confusas e nega o pedido para ser um guia para moça com medo de receber o bilhete-azul. A heroína agradece novamente, mas afaste-se agora um pouco desanimada.

Se ela já está assim só pelas negativas de ajuda, imagine se ouvisse os burburinhos de passageiros ou mesmo de habitantes da cidade. Um deles desenvolvia-se enquanto ela perguntava as direções para o vendedor. Segundo duas moças, o clube 29 de abril havia fechado devido a um escândalo.

A dançarina continua sua busca pelo brilho dos holofotes e encontra um homem mais experiente e um rapaz engraxate que o atende. Ao perguntar pela localização do bendito clube, o jovem apenas afirma não lembrar o endereço, mas sabe que se encontra em uma ruela no bairro Oficinas. Porém, com a sorte do acaso, o cliente conhecido por seus pares como Moreira pretendia ir ao banco e o recinto localiza-se na mesma direção do clube, o que alegrou imensamente a heroína, a qual agradeceu a companhia até o tão desejado local onde sua carreira seria iniciada.

Mas ahhhhh... Pobre moça, se ao menos ouvisse as fofocas que acontecem ao seu redor! Saberia ela que aqueles rumores do início não eram apenas lorota e que o clube havia definitivamente fechado, pois uma das dançarinas mais famosas envolveu-se amorosamente com o patrão casado e, adivinha? A esposa descobriu o caso e o expôs para todo mundo na frente do clube. Em meio ao alvoroço, não havia como terminar de outro jeito: a funcionária foi demitida. Essa foi a razão para que o tio da heroína, amigo do dono, recomenda-se sua brilhante sobrinha para ocupar o lugar. Entretanto, o correio da época não era lá aquelas coisas e atrasou a correspondência com o convite, portanto o clube ficou sem estrela e sem dinheiro. Resultado: falência.

Lá vai a dançarina com as esperanças renovadas pela ajuda do Senhor Moreira. Ao chegarem ao local onde fica(va) o clube, o homem comenta sobre a arquitetura açoriana do prédio, o que na cabeça da heroína era irrelevante, pois essa não era uma área de conhecimento que dominava. Após despedir-se de Moreira, ela percebe que as portas do clube estão fechadas. Será que não está na hora de abrir ainda? Era isso que se passava em sua mente.

Ao olhar pelos arredores, avistou um rapaz varrendo folhas caídas em frente a uma loja. Aproximou-se dele para saber mais sobre o futuro (passado) local de trabalho. O ajudante, um ser não muito simpático nem entusiasta de sua entediante função, após entender que a dançarina não perguntava sobre o clube 7 de julho, outro clube famoso de Tubarão, avisou a heroína do fato até agora ignorado: o local havia fechado há dois meses.

Consternada e incrédula com a afirmação, ela mostra a carta com o convite ao rapaz. Com desdém, o ajudante mostra a data do documento, uma pequenina e crucial informação que passou despercebida pela heroína, ou melhor, por quem leu a carta para ela. Ao finalmente dar-se conta da situação, ela fica indignada, porém, só recebe uma esnobação do rapaz:

 

“Ué, dança, ninguém mandou não ver a data das correspondências que recebe.”

Essa fala inocente acendeu uma lâmpada na cabeça da moça: É isso, vou dançar aqui na rua mesmo, é um espaço público, ninguém pode impedir-me. (Talvez a polícia pudesse, mas a sorte da protagonista é conveniente com sua situação e não rondava por ali muitos guardas).

Após essa súbita iluminação, a dançarina dirigiu-se a um pequeno rádio na frente da loja, o qual estava apoiado em uma banqueta e que tocava uma música qualquer; trocou a estação até encontrar alguma com um samba animado e dançou.

Seus passos são leves e precisos. Sua movimentação é de dar inveja a qualquer professor de dança conhecido nacional e/ou internacionalmente. Ela não tem só técnica ou vontade, mas é uma amálgama de fluidez e controle, a qual demonstra a naturalidade e intimismo da protagonista com a dança.

A cena causa estranhamento não só ao ajudante, o qual não esperava ser levado tão ao pé da letra, mas também a alguns transeuntes, os quais formam um semicírculo ao redor da moça para ver e comentar a apresentação.

Em meio a passos, braços, palmas, sons e vozes, um par singular e pesado de sapatos sociais aproxima-se. Duas garotas avistam a figura misteriosa e a identificam como Ulisses, um agente famoso responsável por clubes em diversas partes do mundo e por caçar talentos pelas ruas.

As palmas do agente silenciam as pessoas, inclusive a dançarina. Com somente a música da rádio preenchendo o ar além de Ulisses, um leve sorriso de canto prenuncia a oferta:

 

“Bela dança, senhorita. Por acaso você teria interesse em se tornar dançarina no meu clube em Buenos Aires?”
 
Confira a versão em áudio desse conto no Spotify:

 

Érica Favarin

Jornada pela Expressão Humana

Érica Favarin Dandolini cursa Cinema e Audiovisual na Universidade do Sul de Santa Catarina. Estagiária do Portal SCTodoDia desde 2022, já produziu podcasts e pequenos noticiários para o site. Atualmente, cuida das redes sociais, além de ser escritora de crônicas, contos e poemas.

Opiniões do colunista não representam necessariamente o portal SCTODODIA.com.br

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