Quarta-feira, 29 de maio de 2024

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Paulo Monteiro

Assassinos da Lua das Flores: Scorsese mistura gêneros em filme sobre ganância histórica

23/10/2023 13h58 | Por: Paulo Monteiro

O apagamento dos nativos indígenas da história dos Estados Unidos se deu, em sua grande maioria, por meio de conflitos diretos contra homens brancos. A disputa de terras após invasões era quase que puramente física, com o uso de armas brancas e de fogo em ataques normalmente anunciados.

O que aconteceu com os Osage (tribo nativa dos Estados Unidos) a partir de meados da década de 1920, no entanto, foge completamente do “comum”. “Valores” foram invertidos e o apagamento desse povo passou a ser muito mais sistêmico e sútil. Nas palavras de um dos próprios personagens indígenas de Assassinos da Lua das Flores: “era mais fácil quando sabíamos quem eram nossos inimigos”. 

Dirigido por Martin Scorsese (O Lobo de Wall Street, Os Infiltrados, Taxi Driver, Os Bons Companheiros…), Assassino da Lua das Flores conta a história real do extermínio promovido contra os Osage em Oklahoma, nos Estados Unidos. Mas não se trata de um massacre como o sofrido pelos originários em Bear River ou pelos negros em Tulsa. Na verdade, foi muito mais político e gradual.  

Em um acordo de divisão de terras no início do século passado, os Osage ficaram com o que inicialmente parecia um território ruim e infrutífero. Depois, descobriram petróleo no espaço, o que mudou por completo a vida da tribo nativa que ali vivia. Os indígenas, então, ficaram ricos e passaram a ditar o rumo dos negócios em uma parte do Oklahoma.

Na década de 1920, no entanto, os Osage passaram a ser vítimas de uma série de assassinatos. Milionários, eles não apenas já viviam em meio aos homens brancos como também faziam negócios e filhos com eles e elas. E foram essas relações que aos poucos culminaram na morte dos indígenas. 

A mão de Scorsese 
A história dessa tribo indígena milionária é contada por meio Ernest Burkhart (Leonardo DiCaprio) e Mollie Burkhart (Lily Gladstone) Ele, um ex-cozinheiro militar da Primeira Guerra Mundial que se muda para o Oklahoma para morar com o seu tio, o assessor do xerife local William Hale (Robert DeNiro), com a promessa de poder prosperar em um meio onde o dinheiro do petróleo rola solto. Ela, uma rica Osage cuja mãe, dona da herança da família, está prestes a falecer.

A vida dos dois se cruza. Primeiramente, pelo amor. Depois, por uma relação de ganância orquestrada por William Hale que tem como Ernest a sua principal peça e Mollie a sua maior vítima. 

Em Assassinos da Lua das Flores, Martin Scorsese abandona mais uma vez a dinâmica de Nova York (tão bem retratada na grande maioria de seus filmes) para explorar uma história densa, real e cruel envolvendo os povos originários dos Estados Unidos e a ganância dos homens. 

O diretor mergulha em uma história que, primeiramente, já se destaca pela inversão de valores. Quem tem dinheiro e poder na Oklahoma dos anos 1920 são os indígenas, e não os brancos. Diferentemente de qualquer outra parte dos Estados Unidos da época, são os brancos quem dirigem os carros para os nativos, que usufruem das jóias e das riquezas fruto do petróleo encontrado em suas terras.

O cineasta consegue estabelecer essa dinâmica de maneira rápida e simples logo no início do filme. Com um plano sequência na visão de Ernest, o cineasta mostra as interações entre brancos e indígenas nas ruas de Oklahoma, onde o poder e a serventia estão em lados opostos do que estamos acostumados. 

No entanto, por mais que o dinheiro esteja concentrado nas mãos dos Osage, ele flui pelos negócios criados e tocados pelos brancos que compõem Oklahoma. Isso acaba gerando uma relação de existência e consumo que, com o tempo, vai fazendo com que a riqueza mude de lado.

Scorsese enxerga esse episódio histórico de maneira muito sóbria e linear, sendo capaz de dar ao espectador o peso que ele realmente tem. Em três atos muito bem definidos, ele dá profundidade a todos os personagens que ajudam a contar essa história, fazendo com que todas as ações e viradas de chave sejam muito bem sentidas e justificadas. 

A história flui de uma maneira muito natural, te deixando preso não às viradas de chave de cada ato, mas sim a continuidade daqueles personagens. Não são os grandes fatos que fazem com que você esteja interessado no longa, mas sim a boa construção de cada uma daquelas pessoas. Nenhum personagem está lá em vão, e tudo o que acontece com eles é capaz de transmitir, ao espectador, o devido impacto.

Tudo isso faz com que as 3h36 de Assassinos da Lua das Flores não sejam exageradas, mas sim necessárias. Scorsese não desperdiça tempo, ele o usa para solidificar as várias pontas que ajudam a contar essa história de ganância. 

Além disso, por mais que Assassinos da Lua das Flores não seja um filme de faroeste ou de máfia, o diretor consegue transitar e misturar esses gêneros para criar algo único, com a sua digital. O Western reside no ambiente histórico do início do século XX, que ainda carrega elementos desse período dos Estados Unidos, encerrado em 1890,seja nos cenários áridos, na característica das edificações ou no uso das armas. Já os traços dos filmes de máfia, que Scorsese inclusive ajudou a consolidar ao longo de sua carreira, está presente no jogo de favores e crimes entre homens brancos para tirar o dinheiro dos Osage. 

As atuações 
Quanto às atuações, não há o que retocar. Leonardo DiCaprio está incrível no papel de Ernest, um personagem que do início ao fim transparece o amor que tem por Mollie, ao mesmo tempo que se permite ser usado e fazer parte de um plano que destrói tudo aquilo que ela mais ama. Essa dualidade o acompanha do início ao fim e faz com que o telespectador não necessariamente tenha empatia por ele, mas sinta o peso de cada um de seus atos.

Robert DeNiro entrega a sua melhor atuação neste século. Um personagem sedento por poder, que se comporta de maneira diferente de acordo com cada meio. Amigável e aliado na frente dos Osage, tirano por detrás dele.

Mesmo assim, em um elenco com tantas estrelas, quem rouba a cena em Assassinos da Lua das Flores é Lilly Gladstone. A atriz centraliza a empatia do espectador, transparecendo melancolia, dor e amor em todos os três atos do filme. Ela é hipnotizante, agindo como o fio condutor de uma história tão longa e densa.

Aos 80 anos de idade, Scorsese consegue mais uma vez se renovar. Entrega um filme fora da sua “zona de conforto”, mas faz dos elementos que tão bem trabalhou em quase seis décadas de cinema a base de uma história grandiosa e atemporal. 

Nota:  ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐

Para ler mais sobre cinema me siga no Instagram, Twitter e Letterboxd (@paulomonteiroc). Confira o trailer de Assassinos da Lua das Flores: 

 

 

Paulo Monteiro

Cinema em Cena

Paulo Monteiro é repórter da Rádio Cidade em Dia, de Criciúma, jornalista profissional e um apaixonado pelo mundo do cinema e cultura pop. Com passagens por veículos de imprensa de Criciúma, já escreveu sobre a sétima arte também para o Cinetoscópio e CineVitor.

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