Sexta-feira, 12 de abril de 2024

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Paulo Monteiro

O Menino do Pijama Listrado está longe de ser o melhor filme para conhecer o Holocausto

22/02/2024 11h11 | Por: Paulo Monteiro
Foto: Reprodução

A recente fala do presidente Lula, que comparou os ataques de Israel que mataram milhares de palestinos ao Holocausto e a perseguição contra judeus na Segunda-Guerra Mundial, trouxe discussões até mesmo para o campo do cinema. 

Para criticar a atitude do presidente, o prefeito de Criciúma, Clésio Salvaro, por exemplo, recomendou que Lula "assistisse O Menino do Pijama Listrado entre outros filmes”. A sugestão surgiu por meio de uma publicação nas redes sociais. 

Acontece que O Menino do Pijama Listrado está longe de ser o melhor filme para se conhecer o Holocausto.

Raso demais para ser referência para um assunto histórico tão sério 

O Menino do Pijama Listrado é um filme raso demais para ser referência de estudo para um assunto tão sério como é o Holocausto e a perseguição dos judeus na Segunda Guerra. Em outras palavras, não deve ser a indicação número 1 para quem conhecer mais sobre as atrocidades cometidas contra esse povo no século passado. 

Adaptação do livro de John Boyne, o filme conta a história de Bruno, um menino de oito anos que se muda para perto de um campo de concentração a partir da promoção de seu pai, um oficial do exército nazista. 

Lá, ele acaba tendo o seu primeiro contato com os judeus perseguidos pelo nazismo, já debilitados e em campos de concentração. Pela inocência de uma criança que não compreende o que está acontecendo ao seu redor, ele também constrói amizade com Shmuel, um menino judeu que está no campo.

Mas por que não usar esse filme para conhecer o Holocausto? Porque ele não passa a dimensão da tragédia que foi esse período histórico. Até porque os personagens principais da história são Bruno e sua família, que fazem parte do meio nazista. Os dois personagens judeus que aparecem no longa ganham pouco ou quase nada mais do que um nome, não possuindo características que remetem a complexidade daquilo que representam. 

Em sumo, não dá para utilizar um filme onde os personagens principais são os nazistas, e os judeus são mero-coadjuvantes com quase nenhum desenvolvimento, para entender o Holocausto. Sem contar a cena final, onde (spoiler) a maneira encontrada para fazer com que o público sinta a morte das câmaras de gás é colocando a criança não judia entre as vítimas. A dimensão dessa tragédia da humanidade não cabe, nem que minimamente, dentro do longa de 2006.

 

Estudiosos também não recomendam o filme para quem quer aprender sobre o Holocausto

Em uma matéria publicada no Uol em 2023, a jornalista Fernanda Talarico traz a opinião de estudiosos sobre o tema que coincidem com a ideia de que O Menino do Pijama Listrado não deve ser recomendado como o filme a ser visto para quem quer entender o Holocausto.

Replico aqui algumas das opiniões dos estudiosos:

“O Menino do Pijama Listrado é um filme que emociona, faz chorar. Isso não é exatamente um mérito do enredo. Envolve, afinal, a morte de crianças, referenciando um evento histórico traumático e triste que assassinou milhões de pessoas inocentes, entre elas ao menos 1,5 milhão de crianças. O filme tem, então, forte apelo emocional, mesmo que com um roteiro extremamente raso”, disse Júlia Amaral, colaboradora do Instituto Brasil Israel e doutoranda em história social da UFRJ.

Sobre o assunto, Júlia também diz o seguinte: “No filme, o personagem principal é Bruno. Conhecemos sua personalidade, sua família e nos identificamos com ele; enquanto Shmuel e outros judeus do campo são apenas vítimas: sem personalidade, características ou qualquer força. Quando os dois meninos morrem, é com a família nazista que o filme cria empatia, e não com as reais vítimas do genocídio”.

O coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba, Carlos Reiss, disse o seguinte sobre o uso da obra como material de aprendizado sobre o evento histórico:

"A venda de milhões de cópias do livro em todo o mundo o transformou em referência para a representação da Shoá [Holocasuto], utilizada por educadores para trabalhar o tema histórico. Não pode ser este o sentido de usar 'O Menino do Pijama Listrado' em sala de aula”. 

Ele também diz que: “Ele [o filme] está longe de ser a melhor alternativa para ilustrar, materializar ou reapresentar a dimensão do Holocausto para o jovem. É pobre, referencialmente, não-ilustrativo e funciona apenas no campo da literatura”. 

Link completo da matéria para quem quiser ler na íntegra:

https://www.uol.com.br/splash/noticias/2023/09/29/por-que-estudiosos-do-holocausto-sao-contra-o-menino-do-pijama-listrado.htm

Paulo Monteiro

Cinema em Cena

Paulo Monteiro é repórter da Rádio Cidade em Dia, de Criciúma, jornalista profissional e um apaixonado pelo mundo do cinema e cultura pop. Com passagens por veículos de imprensa de Criciúma, já escreveu sobre a sétima arte também para o Cinetoscópio e CineVitor.

Opiniões do colunista não representam necessariamente o portal SCTODODIA.com.br

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