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Paulo Monteiro

Por que a saga Pânico é tão divertida?

06/07/2023 10h32 | Por: Paulo Monteiro

Um telefone toca. Uma jovem que está sozinha em casa atende. Um estranho faz um monólogo ameaçador e, depois de alguns minutos, a primeira personagem (ou pelo menos uma das primeiras) vista em tela morre. Foi replicando esta exata cena em quase todos os filmes até então que a saga Pânico conseguiu criar uma identidade visual tão forte que você só precisa assistir a alguns poucos segundos do longa para saber de qual universo ele pertence. E o mais interessante de tudo isso talvez seja o fato de que esta cena é, em seu cerne, uma brincadeira com os filmes de terror. 

Já são seis filmes, uma série e quase três décadas de Pânico. A saga de terror criada por Wes Craven lá em meados da década de 1990 vem sobrevivendo, ainda que aos trancos e barrancos, e se renovando de tempos em tempos. Mas tem uma coisa em específico que continua me capturando em todas essas obras: a construção da diversão.

Afinal de contas, por que Pânico, uma saga de filmes de terror, é tão divertida? Para mim, a resposta, em resumo, é: porque esse sempre foi o objetivo das obras. 

Pânico nasce depois que os filmes de slasher, em que um assassino com características peculiares e marcantes persegue e mata um grupo de pessoas, já estava batido e desgastado em Hollywood. Longas como Sexta-Feira 13, Halloween e até mesmo A Hora do Pesadelo (criado pelo próprio Wes Craven) chegaram na década de 90 com já pelo menos cinco títulos, todos com praticamente a mesma estrutura.

Restou ao Wes Craven, que já havia contribuído para a popularização do slasher, dar uma nova perspectiva aos filmes do gênero, usando tudo o que se sabe sobre tal para alimentar o assassino e os seus próprios personagens. Ou seja, um filme que referencia e até mesmo “satiriza” o então batido subgênero do terror - mas ao mesmo tempo que cria a sua própria história e dá outras camadas de discussão. 

Craven sempre deixou claro em suas primeiras entrevistas sobre o Pânico de 1996 que o filme é sobre um grupo de adolescentes que cresceu e foi influenciado por filmes de slasher, e que é essa influência que acaba guiando a trama. Por parte do assassino, para tecer as características das mortes. Por parte dos sobreviventes, para tentar prever os próximos passos do assassino com base nos filmes que eles mesmos assistiram. 

E é justamente aí que está a diversão. Ao mesmo tempo em que a gente vê essa constante referência aos filmes de slasher, nós, bem como os próprios personagens, somos instigados a tentar identificar quem é o assassino e quais serão as próximas vítimas com base na nossa bagagem do gênero. Para nós, o filme, então, também se torna um jogo, no melhor estilo “whodunit” de Agatha Christie e afins.

E essa é uma das diferenças mais essenciais da saga Pânico enquanto filme de slasher. O assassino sempre muda, ao contrário de A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13 e outros do gênero, em que você não precisa saber quem é a figura (já que ela é sempre a mesma). Além disso, o assassino sempre é apresentado nos primeiros 30 minutos do filme, bem como alguns dos whodunits, o que faz com que fiquemos, ainda que involuntariamente, o tempo inteiro caçando as pistas que podem nos levar até o responsável pelas mortes - e isso é extremamente divertido.

A diversão da saga Pânico também está na liberdade que o filme se permite ter. Por já ter nascido referenciando os filmes de slasher, o longa está sempre “brincando” com as típicas situações desse subgênero que, para os telespectadores, já são vistas como absurdas - como, por exemplo, descer em um porão sozinho ou perguntar “quem está aí” após barulhos extremamente suspeitos.

Clichês do slasher foram transformados em alívios cômicos pela primeira vez em Pânico e perpetuados nos filmes seguintes da saga, com algumas adições - como a criatividade das mortes e por aí vai. 

Mas vale ressaltar que a diversão não é a única coisa que sustenta a saga. A repetição da estrutura dos filmes, que pode até mesmo soar batida hoje em dia, ganha outras camadas que dialogam melhor com o contexto do mundo no ano de lançamento das obras, fazendo com que sempre (ou pelo menos quase sempre) haja algo “novo” no que é apresentado.

São discussões como a da cobertura sensacionalista da imprensa em cima de massacres (como no Pânico 2), a exploração absurda de Hollywood em cima de tragédias reais (como no Pânico 3) e até mesmo a influência na internet na transmissão desses assassinatos (como em Pânico 4). 

Como o próprio Craven disse no lançamento do primeiro filme da saga, toda essa referência aos filmes de slasher é o que está na “primeira camada” do longa (a mais divertida, obviamente), e que abaixo disso há um estudo sobre a “percepção de crianças e adolescentes sobre o que é violência e como você lida com isso ao ser fã de algo tão violento”.

Paulo Monteiro

Cinema em Cena

Paulo Monteiro é repórter da Rádio Cidade em Dia, de Criciúma, jornalista profissional e um apaixonado pelo mundo do cinema e cultura pop. Com passagens por veículos de imprensa de Criciúma, já escreveu sobre a sétima arte também para o Cinetoscópio e CineVitor.

Opiniões do colunista não representam necessariamente o portal SCTODODIA.com.br

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