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Paulo Monteiro

Resistência (2023): filme utiliza elementos consagrados do sci-fi para construir universo cyberpunk original

02/10/2023 17h51 | Por: Paulo Monteiro

A vida para além da Terra é pensada em obras literárias desde o século XVII, quando O Sonho, livro de Johannes Kepler, imaginou o primeiro contato entre humanos e seres vivos extraterrestres na lua. A partir daí, H.G Wells, Mary Shelley, Isaac Asimov e outros escritores foram, ao longo dos séculos, contribuindo para a construção de elementos hoje extremamente comuns em obras de ficção científica. 

Algo que impera desde o primeiro sci-fi é justamente o contato entre o humano e o não humano e as reflexões que isso proporciona. O que podemos considerar vida? Assim que temos essa resposta, é possível dizer que um tipo de vida é mais importante do que a outra? Por que? 

Esses questionamentos chegaram ao cinema logo em 1902, com A Viagem à Lua, de Meliés. Ganharam outras camadas com Frankenstein (1910); Metrópolis (1927), Guerra dos Mundos (1953), Star Wars (1977); Blade Runner (1982) e por aí vai. 

Dificilmente veremos, hoje em dia, uma obra de ficção científica que traga um conceito novo, nunca antes visto nos livros e filmes consagrados ao longo dos últimos séculos. Resistência, nova obra de Gareth Edwards, diretor de Rogue One: Uma História Star Wars, não faz questão de ir além disso - mas entrega algo conciso e com um toque de originalidade. 

No longa, humanos constroem robôs com inteligência artificial e passam a incluí-los em seu dia-a-dia, para tarefas antes feitas apenas por pessoas reais. Em determinado momento da história, as I.A’s já carregam rostos, corpos e expressões humanas e ambos coexistem. 

A explosão de uma ogiva nuclear em Los Angeles, no entanto, acaba dizimando mais de um milhão de habitantes e recai sobre as inteligências artificiais. Os Estados Unidos, então, declaram guerra contra a tecnologia, que reside em harmonia com os humanos no continente chamado de Nova Ásia.

O agente norte-americano Joshua, interpretado por John David Washington, recebe a missão de se infiltrar no cotidiano do continente e matar Niermata, a pessoa responsável por criar uma inteligência artificial capaz de destruir a máquina estadunidense que promete dar fim a existência das I.A 's. A jornada de extermínio, no entanto, ganha outras camadas quando amor e outras experiências são adicionadas ao contato entre humanos e robôs.

Não há nada em Resistência que você já não tenha visto em outros conhecidos filmes de ficção científica. Diversos elementos consagrados em obras do gênero estão presentes no longa de Gareth Edwards, incluindo a discussão sobre humanidade e inteligência artificial - feita com muito mais profundidade em Blade Runner.

Não trazer nada novo, no entanto, não joga contra Resistência - pelo contrário. O filme não se perde na tentativa megalomaníaca de criar um novo fato para o gênero de ficção científica - algo que, por diversas vezes, acabou desvirtuando obras e fez com que elas se perdessem em ideias mal retratadas em tela. 
É possível dizer que Gareth Edwards jogou no seguro. Fez uso de elementos típicos do sci-fi para construir um universo cyberpunk bastante original. A originalidade, no entanto, vem do prisma dado pelo diretor às características da ficção científica.

A começar pelo cenário. As naves e edifícios extremamente tecnológicos podem até estar lá, mas são utilizados com muito menos frequência e contrastam muito bem com objetos e costumes comuns do nosso cotidiano, como carros e casas antigas e vestimentas comuns.

Essa interação entre design futurista e cenários rurais da Ásia cria uma estética bastante única e marcante para a obra de Edwards. A fotografia, dirigida por Greig Fraser (Duna, The Batman e Rogue One) explora muito bem esse contraste, que brinca com luzes brilhantes em uma metrópole e extensas plantações do interior asiático.

No meio desses cenários, então, é construída uma história simples, porém muito bem executada. O personagem interpretado por John David Washington descobre que a arma criada por Niermata é, na verdade, uma inteligência artificial criança - algo até então nunca visto.

A jornada ao lado da arma pende para o início de uma relação. Se torna cada vez mais difícil para Joshua entender o que realmente separam as inteligências artificiais dos humanos, visto que a demonstração de sentimentos verdadeiros, em determinado momento, parece não ser mais um empecilho para os robôs.

Resistência é uma ficção científica concisa, com histórias simples e elementos visuais marcantes, que te deixa com vontade de conhecer novas histórias dentro do universo construído assim que os créditos sobem. Não inova ou tenta ser inovador, mas consegue ser um respiro para um gênero de sci-fi que, por diversas vezes, carece de coração. 

É um filme que funciona tanto para os mais apaixonados por ficções científicas quanto por aqueles que apreciam uma decente jornada do herói. Tudo isso para, no final, deixar um gosto de “quando saberemos mais sobre os humanos e robôs desse universo?”.

Nota:  ⭐ ⭐ ⭐ ⭐

Confira o trailer de Resistência:


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Paulo Monteiro

Cinema em Cena

Paulo Monteiro é repórter da Rádio Cidade em Dia, de Criciúma, jornalista profissional e um apaixonado pelo mundo do cinema e cultura pop. Com passagens por veículos de imprensa de Criciúma, já escreveu sobre a sétima arte também para o Cinetoscópio e CineVitor.

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