Quarta-feira, 19 de junho de 2024

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Paulo Monteiro

Indicado ao Oscar, Pobres Criaturas reimagina Frankenstein a partir da liberdade feminina

21/02/2024 19h10 | Por: Paulo Monteiro

O quão despido de vergonha um ser humano poder ser e até onde isso o levará? Talvez essa questão seja o fio condutor de Pobres Criaturas, novo longa-metragem do cineasta grego Yorgos Lanthimos que empilhou 11 indicações ao Oscar de 2024, incluindo o de Melhor Filme. Esse questionamento, no entanto, não representaria tanto para a obra se não fosse a adição de outras várias camadas tão importantes quanto para a composição final - sendo a principal delas a de que a figura que está despida de um sentimento vergonhoso é, nesse caso, uma mulher.

Baseado no livro homônimo de Alasdair Gray, Pobres Criaturas conta a história de Bella Baxter, uma mulher adulta com o cérebro de uma criança em uma jornada de descobrimento do seu próprio “eu” e do mundo onde está inserida. E saiba que quando falo “uma mulher adulta com o cérebro de uma criança”, estou me referindo a algo literal - o que dá personalidade para a obra e amplifica ainda mais as discussões da mesma.

No longa, a personagem interpretada por Emma Stone é resultado da criação de Godwin Baxter (Willem Dafoe), um cientista com quê de Victor Frankenstein que trouxe à vida uma mulher após um suicídio - mas com a diferença de que, no renascimento, seu cérebro foi substituído pelo da criança que ela carregava no ventre. É então que temos como centro da história uma mulher adulta, mas com mente de criança, e que está em constante processo de aprendizado.

Pobres Criaturas é como se fosse uma reimaginação de Frankenstein, clássico literário de Mary Shelley onde temos um cientista e o monstro que ele criou. A diferença é que essa relação do “médico” e do monstro é apenas o ponto de partida para exploração de algo socialmente e filosoficamente muito maior: a liberdade feminina e o contraste dessa emancipação com o restante do mundo.

A emancipação feminina de Bella Baxter

Bella é uma mulher, e até certo ponto uma criança, despida de vergonha. Criada em um lar científico e de experimentos, onde convivia com animais miscigenados e corpos humanos dissecados, ela atravessa o processo de amadurecimento sem balizadores morais que são comuns a nós, de uma sociedade ocidental.

E é a ausência desses balizadores morais, e de outros pesos como a culpa cristã, que faz com que tenhamos uma personagem que desafia convenções da sociedade e, portanto, acaba por explorar de maneira até mesmo invejável a liberdade feminina. Bella é uma tela quase em branco que contrasta com um mundo patriarcal - com a diferença de que as poucas linhas que tem escrita em si, antes de entrar em contato com o mundo, não foram afetadas por uma religião ou moldadas pelo que necessariamente convencional no mundo externo.

Com isso, se têm uma personagem que irá descobrir a sua sexualidade e desejos sem limites morais, o que nos garante cenas tão cômicas quanto reflexivas. A interação de Bella com o mundo é o que há de melhor no filme de Lanthimos, justamente por ser aí que reside praticamente todo o humor, o drama e a essência provocativa da obra.

Além disso, a relação de Bella com Duncan Wedderburn (Mark Rufallo) é o cenário de algumas das cenas mais provocativas para a construção dessa história. É com ele que a personagem de Emma Stone descobre alguns dos prazeres da sexualidade, mas também é por causa dele que ela passa a desprezar algumas das características da humanidade. Tudo isso em uma interação cômica e dramática.

O sexo em Pobres Criaturas

É impossível falar sobre Pobres Criaturas sem citar as cenas de sexo. O filme de Lanthimos tem muitas cenas de sexo. E, para ser bem sincero, isso é bom, pois é provocativa a uma noção cada vez mais conservadora de que a retratação do sexo no cinema precisa servir para algo maior, que ajude na construção do personagem e apenas isso - do contrário, “não precisa”, “não quero”, “tenho repulsa”, “é desnecessário”.

Por mais que no caso de Pobres Criaturas o sexo realmente contribua para a construção dessa personagem que está muito a vontade com a busca por aquilo que lhe satisfaz, a frequência dessas cenas bate de frente com essa ideia mais conservadora do cinema que cresce nos últimos anos.

Existe, de fato, uma discussão sobre as cenas de sexo do filme serem ou não poucos criativas - em contraste com toda a criatividade que Lanthimos teve para compor outros aspectos do filme. Ainda assim, o diretor consegue fugir de um olhar fetichista em cima dessas cenas e, de quebra, de fato ajuda a fomentar a discussão da liberdade feminina, do papel e dos limites da mulher - dilemas vividos por Bella Baxter. Tudo isso, obviamente, funciona por conta da atuação e da produção de Emma Stone, que esteve extremamente envolvida com o longa.

As boas decisões de Yorgos Lanthimos e o peso de Emma Stone

Pobres Criaturas só é o filme que é pela interpretação fantástica de Emma Stone no papel de Bella Baxter - a qual a deve render o Oscar de Melhor Atriz. Emma desempenha, aqui, talvez a melhor atuação de sua carreira, devido a complexidade de sua personagem e de fazer com que ela cative, incomode e também apaixone o público.

Enquanto Bella, Emma retrata humor e drama, confusão e certeza, curiosidade e medo - tudo em uma só personagem. Esses sentimentos e percepções são apresentados ao público através de uma atuação corporal muito forte, com um caminhar descompassado, uma entonação de voz por vezes inconsistente e expressões faciais que indicam a inocência e a curiosidade do cérebro de uma criança - mas em um contexto completamente adulto.

Tudo isso também funciona pela maneira como Yorgos Lanthimos dirige o filme. A esquisitisse da nossa personagem é equivalente a do seu entorno: da estética vitoriana steampunk, dos cenários grandiosos com cores saturadas, dos animais miscigenados e, também, pela escolha de enquadramentos e de técnicas de filmagem.

Em alguns momentos, Yorgos utiliza lentes olho de peixe para mostrar de maneira distorcida aquele mundo que também é, de certa forma, distorcido. Ou, até mesmo, ângulos que partem de baixo para distorcer ainda mais a nossa personagem que provoca um sentimento um pouco incômodo ao público ao longo de todo o filme.

Um dos melhores filmes do ano

É possível dizer que Yorgos Lanthimos correu muitos riscos ao adaptar essa obra para o cinema. Talvez a maior de todas fosse fazer com que a jornada de sua personagem principal ficasse resumida apenas ao sexo, como se isso representasse a emancipação feminina que ela busca. No fim das contas, o cineasta não caiu nessa armadilha - e tendo a acreditar que a mão de Emma Stone na produção o ajudou e muito com isso.

Pobres Criaturas é uma ficção ácida e provocativa que existe na história de uma personagem que quebra convenções. O longa consegue ser isso sem abandonar o drama e, principalmente, o humor - que não apenas está presente na obra como, também, talvez ajude-a a torná-la mais aceitável para um grande público.

O filme de Yorgos Lanthimos é certamente um dos melhores do ano e deve fazer a limpa em algumas categorias do Oscar de 2024 - mas as apostas eu trago mais adiante.

Nota: 5/5

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Paulo Monteiro

Cinema em Cena

Paulo Monteiro é repórter da Rádio Cidade em Dia, de Criciúma, jornalista profissional e um apaixonado pelo mundo do cinema e cultura pop. Com passagens por veículos de imprensa de Criciúma, já escreveu sobre a sétima arte também para o Cinetoscópio e CineVitor.

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