Segunda-feira, 15 de abril de 2024

COLUNISTAS

Luiz Gustavo Kabelo

Solidão, ataque a democracia e Homeschooling

27/03/2024 10h18 | Por: Luiz Gustavo Kabelo

A solidão traz grandes riscos à saúde, como a maior propensão às doenças como: doenças cardíacas, derrames, demência e depressão. Mas a solidão também pode acarretar um problema muito maior, que ameaça a democracia. 

Segundo uma pesquisa alemã, denominado Extrem Einsam, um quarto dos jovens adultos entre 18 e 29 anos diz que se sente solitário frequentemente. Alguns centros de pesquisa apontam que a solidão já é uma pandemia global e foi acelerada pela pandemia de COVID-19. 

O estudo Extrem Einsam (extremamente solitário), conduzido como parte do projeto Kollekt e financiado pelo governo alemão, sugere uma ligação entre solidão e atitudes antidemocráticas, indicando que a solidão pode representar uma ameaça à democracia.

Os solitários têm mais propensão às inclinações populistas e crenças em teorias da conspiração, além de maior propensão a acreditar em fake news. Ainda, os pesquisadores sinalizaram uma tendência a adotar atitudes autoritárias, apoiar a quebra de regras e a violência.


Aqueles que vivenciam solidão por um período prolongado geralmente desenvolvem uma perspectiva distorcida da realidade, frequentemente mais pessimista. Isolados, os jovens buscam a interação na internet, lugar onde já existe uma distorção da realidade, seja pela demagogia ou padrões de beleza impossíveis de alcançar, inflamando o indivíduo mais e mais.

Mas, note que o extremismo – neste momento falarei por mim – não é algo radical, no sentido de raiz do problema, mas sim algo extremo, pois se refere a algo voraz que leva a atitudes antidemocráticas.

No entanto, essas atitudes estão à margem do problema, nunca se aprofundando ou lidando com as raízes propriamente ditas. É por isso que são persuadidos por populistas e não por radicais. 

Não me espanta que essa solidão, que faz o sujeito simpatizar com o ataque à democracia, seja incentivada pelos extremistas que defendem o Homeschooling, uma atividade que extrai o jovem da sociedade em um momento muito importante do seu desenvolvimento, momento no qual a interação é uma das ferramentas que tem suma importância – se não a mais importante – para o desenvolvimento do indivíduo.

É o momento que ele entende que existem outras classes sociais, outros gêneros, outras raças e outras religiões, etc. É o momento de entender que ele, enquanto indivíduo, tem suas peculiaridades, assim como os outros têm as deles, e juntos contribuem para a construção das políticas públicas que sustentam a sociedade e garantem a democracia.

Me parece que a democracia sempre está em risco e sempre precisaremos defendê-la. Isso só mudará quando nos engajarmos verdadeiramente nos assuntos, em vez de apenas arranhar a superfície dos problemas... deveremos, também, nos abrirmos para as diferenças e dialogarmos. Assim, poderemos fugir do populismo da demagogia – o mal que engaja e vence eleições

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Luiz Gustavo Kabelo

Demagogia – o mal que engaja e vence eleições

13/03/2024 10h36 | Por: Luiz Gustavo Kabelo

A democracia é a melhor forma de governo que a humanidade já encontrou. Ela se desenvolve desde a Grécia antiga, porém, por vezes se faz bastante frágil. Aristóteles já apontava, há milhares de anos, a sua maior inimiga que se faz presente até os dias atuais: a Demagogia. 

Entre os seis governos que Aristóteles destrinchou um deles se destacou, que é o modelo que o filosofo definiu como o melhor: a democracia. Resumidamente, o autor a define como: um governo que não fica na mão de poucos, pois os interesses e a individualidades dos cidadãos são considerados. 

Não espero que o meu leitor se apegue nas visões de Aristóteles, já que o pensador tem mais de dois mil anos. Além do mais, a sociedade já se desenvolveu e encontrou soluções mais inteligentes, soluções essas que nem o filósofo e nem a democracia Grega encontraram. A democracia da época de Aristóteles era, também, demasiadamente excludente e preconceituosa. 

O que trago aqui é um problema já apontado há milênios, que ainda nos assola e que atualmente, assim como em outras décadas, está em alta. A ideia não é encontrar solução no passado, e sim desenvolver algo que o passado também tentou desenvolver, apontando a gravidade de tal assunto. 

Se a democracia é a decisão livre do cidadão sobre o seu contexto, a demagogia vai contra essa “liberdade” a afeta e a ataca. Mas, não pense que é ela é algo simples e visível, em que podemos apontar e dizer “Isto é demagogia!”  Não! Ela é quase invisível - pelo menos para os desavisados.

Logo, a demagogia não se faz representante da maioria, mas sim vai contra os pilares que sustentam a democracia. Se nosso sistema se define pela decisão da maioria, a demagogia vai a favor de um pequeno grupo. Ainda, ela mascara as reais intenções, fazendo a grande massa concordar com absurdos que vão contra seu próprio interesse, que vão na contramão do seu poder de decisão e seu sistema democrático. 

Os demagogos são os condutores do povo ao abismo, não prezam conduzir à racionalidade, ao discernimento, ao senso crítico ou a qualquer tipo de questionamento. Podem e vão apelar para sentimentalismo, para instintos primitivos, para o bem da família! Note que o discurso navega sempre por questões genéricas que dizem respeito a todos, mas não tem a intenção de afetar a todos. Esse é o principal sinal.

Assim, políticos e seus lacaios usam deste mecanismo para ganhar algum tipo de relevância, pois frases como “imagine sua família nesta situação”, “estão destruindo o futuro de nossas crianças” são clássicos discursos demagogos, tudo feito para gerar engajamento e conquistar alguns votos. Não pense que este é um mal exclusivo da esquerda ou da direita, mas sim um mal de quem quer se promover usando a política e a demagogia como ferramentas, usando a população como um meio para seus objetivos.

Os ideais de igualdade, fraternidade, solidariedade e liberdade caem por terra em uma demagogia. Mas, algo que pode nos blindar contra tais fatalidades é a educação. Logo se torna nítido porque existem tantos esforços para fragilizar o ensino e o educador. 

Não existe um caminho certeiro para fugirmos da demagogia, seria prepotência minha indicar uma solução para um problema milenar, mas posso confirmar que esta jornada não será efetiva sem a parte que mais desenvolveu e desenvolve o ser humano. Uma sociedade que censura bons livros, repele o bom senso e insere representantes demagogos em cargos de gestão importantes para o desenvolvimento de uma sociedade, está, certamente, fadada ao fracasso.
 
 

Luiz Gustavo Kabelo

Nômades do mercado de trabalho

29/02/2024 17h30 | Por: Luiz Gustavo Kabelo

Cada vez mais o que nos individualiza se torna evidente, o que nos separa de direitos conquistados através de muito suor. Os jovens são os que mais sofrem – e ainda vão sofrer - com essas tendências de “mercado”.  
A precarização do trabalho é vista ano após ano no mundo afora, mas no Brasil ela se intensifica. Como uma espécie de cobaia, nós servimos como um experimento para as grandes potências. 

Na década de 60, nossa CLT adicionou o 13° salário e o FGTS, e acredite meu leitor, estes direitos não surgiram como um fetiche, não surgiram de um devaneio, mas sim de exigências e necessidades, pois a precarização do trabalho levou a isso. Surgiram, também, para dar mais dignidade à vida humana que está ali trabalhando e buscando o pão de cada dia, e não apenas isso, mas também garantindo que seus filhos e filhas tenham pais minimamente presentes, pais que não precisam terceirizar a educação e que consigam estar ao lado de quem tanto amam. 

A desvalorização desses e outros direitos se intensificou a partir de 2017 com o governo Temer, pois não só se normalizou o trabalhado autônomo, como também, aumentou o caso dos empregadores que se excediam precarizando o trabalho. Se incentivou e se incentiva uma tendência adaptativa, uma liquidez como diria Bauman no mercado de trabalho. Se os salários estão baixos em uma carreira: mude de carreira! Se você se sente desvalorizado em uma empresa: mude de empresa ou vire autônomo. 

Logo, não se faz necessário se solidificar em uma carreira e buscar mais qualidade de vida em uma profissão, porque esses seres adaptados – e pouco aprofundados em nenhuma área – vagam como nômades de um lado para o outro, sem senso critico algum, apenas buscando cursos rápidos e genéricos, livros curtos que não desenvolvem um raciocínio, defasando cada vez mais o desenvolvimento dos indivíduos. 

Tudo se torna prático, pouco ou nada subjetivo, se desvaloriza o que leva tempo: um filme relativamente grande se torna tedioso, ainda mais se não houver uma utilidade clara... se valoriza o resumo e não a vivência em si. 

Esse recorte da pós-modernidade está simplificando tudo. Até mesmo na psicologia vemos um retrato desta época, com abordagens simples para sujeitos simples, centradas no comportamento, usando frases de efeito e receitas de bolo. E, é claro, por meio dos terapeutas (sem formação em psicologia), vemos os coachs tomando conta dessa área apenas para vender cursos e formações rápidas.

Assim, se frustra o acadêmico de psicologia, que precisa de anos de formação e se potencializa a migração do estudante para métodos mais rápidos, o quais muitos são pouco ou nada efetivos.

 Isso é apenas um recorte de todos os danos causados pelas tendências modernas que sofremos, mas ainda tem muito por vir. Não existem soluções simples para problemas complexos! O que nos levou a essa etapa não cessará com você se desvencilhando das “crenças limitantes” como diria um e outro. A vida é muito mais rebuscada e articulada para a solução dos seus problemas ser uma frase de efeito.


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Luiz Gustavo Kabelo

A mentira se tornou um negócio lucrativo

07/02/2024 15h12 | Por: Luiz Gustavo Kabelo

Não é preciso navegar muito pela rede para encontrar charlatões desprovidos de ética, vendedores de seja lá o que for tentando arrebatar novos desinformados todos os dias. Assim, mantendo-se um atraso intelectual e cultural que pode ser perigoso.

 “A pós-modernidade trouxe a ideia de que tudo é narrativa e de que nada existe de verdade”, como nos disse Pondé, logo, deu espaço para esses “charlatões”, homens e mulheres que de inocentes não têm nada, venderem estilos de vida, produtos, conselhos ou o que quer que seja, para arrancar alguns trocados ou verdadeiras fortunas de você. Escrevem livros, dão workshop, vão contra a ciência, contra a razão e qualquer coisa que tenha fundamentação teórica real, já que contêm apenas uma perspectiva: o lucro. 

Então, se começa uma nova narrativa/teoria falsa, baseada em outra que já foi desmentida, com apenas algumas modificações na nomenclatura, como “milenar”, “secular” ou algo que dê credibilidade. E, assim, essas teorias continuam pegando alguns bobos pelo caminho. 

Cada uma dessas personalidades tem seu público-alvo, como por exemplo alguém tentando emagrecer e não consegue e, então, encontra esse coach com seu método ou seu produto, com promessas de emagrecimento “certeiro”. Ou pode ter uma pessoa frustrada com a política, esse alvo, então, encontra um velho “sábio” proferindo palavrões aos montes, energizando o ouvinte, engajando o ouvinte! Mas, no fim, os dois são iguais, e só querem o lucro que o seguidor engajado pode providenciar. 

Mas existe um exemplo que eu não posso deixar de citar, porque provavelmente é o mais nefasto: o revisionismo histórico que é feito para obter lucro – provavelmente querem mais, e eu estou sendo inocente. Ali, reescrevem-se fatos, modificando-os, para ir de encontro com preconceitos do seu público, municiando reacionários com mentiras registradas em livros revisionistas. Isso me parece o mais perto que chegamos de uma distopia - e provavelmente o fator que pode nos levar para uma.

Poderia citar profissões que surgem por especulações, que não tem outro motivo se não o de vender cursos. Mas o que quero me ater é que a maioria dessas mentiras lucrativas já foram desmentidas e refutadas; porém, tamanho é o volume de desinformação que acaba soterrando quem as contradiz. E, quando aparecer outra “moda”, certamente haverá outro charlatão, trocando uma mentira por outra - os mentirosos disputando lugar de fala, me parece mesmo uma distopia.


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Luiz Gustavo Kabelo

O preço de um ideal

31/01/2024 10h45 | Por: Luiz Gustavo Kabelo

Qual o preço para se construir um ideal? Quantas sociedades foram nomeadas como “bárbaras” para justificar violência, quantas mentiras foram santificadas, quantos “deuses” foram precisos sacrificar? Tudo em razão de um ideal.

O Império Romano, durante muito tempo na antiguidade, invadiu e escravizou em nome da crença na sua superioridade e evolução. Em sua expansão, nomeavam seus rivais como “bárbaros, ” como justificativa da conquista.

Trazendo para mais perto, temos outro exemplo com a igreja católica, que buscou “santificar” as outras populações, ajudando a investir nas expansões dos europeus pelas américas. Existe uma semelhança nesses movimentos em que eu poderia citar mais exemplos, mas a questão é a nocividade de impor um ideal. Estas imposições são sempre agressivas, por vezes cruéis. 

Neste momento, o católico que lê isto pode se sentir atacado, pode sentir um nó do estomago ou até mesmo pode cessar sua leitura desta coluna. Eu acho esse sentimento muito importante, porque ele se conecta com os sentimentos que esses povos que foram “santificados” sentiram; este gosto amargo, serve como tira-gosto, uma fração do sentimento que os povos e nações inteiras vivenciaram.

Estou usando uma figura de linguagem simples, talvez devesse ser mais incisivo, mas os não católicos terão de me perdoar. A intenção aqui não é confrontar, mas sim fazer compreender o lugar do subjugado, pois este amargo, nada mais é que uma representação do sentimento que os Romanos deixaram em seus vizinhos “bárbaros”. 

    Agora como se constrói um Ideal? Digamos um ideal um tanto mais saudável? Através da - já apresentada aqui – dialética. O ideal se faz por consenso, a partir de conversas e debates é que se extrai o caminho, que não deve ser algo a ser atingido, mas algo a ser construído.

 É de suma importância furarmos as bolhas sociais para que isso aconteça, a maior barreira para isso é a polarização, que separa amigos e parentes. Mas, para tal acontecimento, é necessário acabar com os ideais fixos, – um dos motivos para tamanha polarização - pois com eles existindo a dialética é inútil. 

O apego às ideias, aos futuros pré-fixados torna o sujeito sectário, o que pode tornar o sujeito reacionário, levando-o a irracionalidade que o cega, acaba, assim, por não perceber a dinâmica da realidade ou quando a percebe, é uma percepção equivocada, como diria um pensador brasileiro “sofrem por falta de dúvida”.

É importante reconhecer e entender o passado, para que não se repita os mesmos erros, e o reconhecer para não entrar em negação, partindo, assim, para loop que se transfere de geração para geração, trazendo a perda de culturas inteiras, e até mesmo de vidas.


 

Luiz Gustavo Kabelo

Idiota Útil (e convicto)

23/01/2024 14h20 | Por: Luiz Gustavo Kabelo

Em certa medida, os idiotas úteis movem o mundo. Com um aspecto de massa, estão por aí andando em grandes manadas ou sozinhos de frente para uma tela, mas como nós os identificamos?
Existem três pilares que formam nosso objeto de estudo e tentarei descrevê-los minimamente aqui, mas deixarei o resto do desenvolvimento com você meu leitor.  Não é incomum esbarrar com um desses seres úteis por aí, você já os encontrou, apenas busque agora relacionar o que lhes direi com o que você vivência. 

O primeiro aspecto é aderir às filosofias de grupos já existentes, por vezes usam do passado, desenterram crenças mitológicas interpretadas erroneamente - a maioria das vezes erroneamente. Dirão que suas crenças são verdadeiras porque sobreviveram ao tempo, portanto o certo é manter a “tradição”. Não é comum grupos como esses aderirem a um sentimento saudosista, por exemplo: em algumas bolhas dizem que o Latim é a língua verdadeira e, assim que nos afastamos dele, a depravação se ergueu em nossa sociedade (espero intensamente que você não concorde com essa asneira). 

Essa primeira parte é muito importante, porque o idiota útil sempre tenderá a uma solução encantada, que apenas a convicção falaciosa pode gerar, pois ele admite um problema, porém, a solução que nosso idiota encontra é uma fantasia que o assombra e o faz pulsar, vibrando e amando seu conto de fadas, sua solução.

A segunda parte que assegura a posição do nosso ilustre idiota é a falsa compreensão de sua causa. Ele terá muitas frases de efeito e palavras calculadamente encaixadas. Porém, com uma investigação mais apropriada e com um pouco de dialética, o conto de fadas se desfaz. Claro, a lógica com ele não funcionará porque ele ama seu mundo e suas respostas, ama seu conto de fadas. Então, se faz necessário o uso de outras ferramentas. 

Mas é claro! Ele já estará armado, pois seu meio já o blindou, não admitirá nada de certos autores e alguns adjetivos serão usados, como “comunista”, “neoliberal”. E, alguns até estarão certos, mas normalmente dão uma resposta muito vaga, pequena, que não abrange toda a realidade. Esse adjetivo não necessariamente quer dizer algo, mas sim tem um papel de descredibilizar, já que se faz recortes da realidade e lhe é aplicada sua fantasia. Então, com frações de verdades, eles nos trazem um tanto de maldade, no sentido de querer fugir, no sentindo de não querer debater e conversar, para então se criar algo mais apropriado para o problema.

A importância da criação desses adjetivos é crucial para quem se beneficia dessas bolhas, pois assim asseguram que seus peixinhos não nadem por outros mares, ficando em águas rasas, tendo em vista que é muito mais fácil pescar um peixe que vive no raso. Ali, o desenvolvimento é impedido com mentiras e você saberá, daqui a pouco, como é importante essa superficialidade. 
Se percebe que não estão em busca de se desenvolver, mas sim de fazer valer o que é dito literalmente: dizem não ao desenvolvimento de uma ideia, mas sim a uma ideia imposta através da rigidez. A proposta não é a de debater e ouvir as demandas do outro, as histórias dos sujeitos e entender pelo que o outro passa, mas sim de convencer.

A terceira etapa que assegura que nosso amigo útil se perpetue no seu lugar é esta: terá um ídolo. Alguém que conseguiu pescar esse peixinho perdido, alguém a quem ele possa confiar e lhe dê sua filosofia; alguém bom com a retórica. Provavelmente este ídolo será o que tem as melhores frases prontas, que já sabe da sua condição, que conhece seu nicho... este ser já conhece esse mar, sabe que peixe nada por aqui, e sabe qual é a melhor isca para tais peixinhos. Em uma espécie de loop, nosso convicto passa por todas as etapas e, quando chega na terceira, é apresentado a ele uma nova filosofia, criando outro ciclo. 
 

Luiz Gustavo Kabelo

Nada é mais perigoso do que um idiota convicto

16/01/2024 15h42 | Por: Luiz Gustavo Kabelo
Foto: Reprodução

O que banha o pensamento contemporâneo é a convicção, a certeza, um pensamento sólido que não pode ser dissecado, pois, se o fizermos, iremos de encontro ao abismo -ou se preferir, o vazio.

Nada é mais perigoso que um idiota convicto, porque são miseráveis sem culpa. Se você conseguir, porventura, abrir o peito ou uma mente deles, encontrará o abismo, a ausência de calor, de ternura, nem um tipo de amor. Minto, você encontrara um amor pela sua convicção. 

As convicções são inimigas da verdade e mais perigosas que as mentiras. Os convictos fogem do racionalismo, o qual defende que o conhecimento é constituído por meio da dúvida. Podemos voltar mais no tempo com Sócrates “Só sei que nada sei” - frase que já expliquei em outras colunas. Então, em um idiota convicto, a tarefa de troca de conhecimento, de desenvolvimento do conhecimento se faz cada vez mais difícil. Se constrói uma desvalorização da literatura e das ciências no geral, pois no advento da pós-modernidade se faz necessário que tudo seja mais rápido, um tanto mais mastigado, pouco complexo, tornando todo um tanto raso. São simplificadas temáticas sérias em livros pequenos -resumo do resumo- em vídeos pequenos, e com essa fração de conhecimento, as quais muitas são mentirosas também, se cria a convicção vazia. 

Como podemos ver, as mentiras também podem criar certezas, dificultando ainda mais o debate e o desenvolvimento, porque a única coisa que não pode ser rebatida com a ciência é a mentira, já que ela não precisa de nada para se fundamentar. Enquanto a ciência necessita de fatos, números, dados qualitativos e quantitativos, a mentira só necessita de um fator: a convicção.

Neste primeiro exemplo, citei um tipo de convicção minimamente embasada -muito minimamente mesmo. Ainda existe o outro tipo de convicção e, talvez, seja a mais perversa, porém mais inocente, que faz do nosso convicto quase um coitado. Quando se cria ídolos, sendo eles totalmente enviesados, seja pelo mercado, pela política, por um carreirismo em qual área for feito para se elevar de alguma forma, cria-se o pior tipo de convictos. Eles podem (e vão) apelar para instintos animalescos, fé, ou seja, para o que as pessoas têm de mais precioso; dirão até que os filhos de sua audiência estão em perigo. Não consigo calcular tamanha covardia, espero que um dia os convictos possam. 
 

Luiz Gustavo Kabelo

Não seja feito de idiota: nada comprova a teoria do lobo “Alfa”

02/01/2024 15h49 | Por: Luiz Gustavo Kabelo

Mais uma vez, uma inverdade - de tanto ser contada- se torna verdade. Digo para vocês que tamanha foi a desinformação que tive acesso para embasar essa coluna, pois apenas obtive êxito em minha pesquisa utilizando o Google Acadêmico. Isso acontece porque a rede já foi bombardeada e a cada dia é mais infectada com a desinformação e com notícias falsas.

Não é incomum encontrar vídeos de homens de terno dizendo que você precisa ser um “Macho Alfa”, como também livros e cursos te ensinando a escalar para chegar no tão idealizado patamar. Na realidade, a teoria de David L. Mech sobre a organização dos lobos, publicada em 1970, que consiste em ter um lobo “Alpha” como o principal, como o tal “líder”, já foi totalmente desconsiderada. A teoria já foi desconsiderada, até mesmo, pelo próprio autor, pois ele notou que seu método não foi apropriado e que a dinâmica dos lobos é muito mais complexa.

Mech percebeu que era necessário largar o termo “Alpha” para se referir aos lobos pois, após voltar para sua pesquisa, ele configurou sua própria metodologia como simplista. Ali, notou que a estrutura social dos lobos era muito mais fluida e baseada em relacionamentos sociais mais complexos. Portanto, a ideia de que os lobos têm uma estrutura social rigidamente hierárquica com "alfa", "beta" e "ômega" não é mais considerada precisa pela comunidade científica que estuda o comportamento dos animais.

A partir disso, podemos fazer um exercício e observar como um termo errado pode ser incorporado ao nosso meio social, simplesmente por ele dar lucro, gerar engajamento (o que não deixa de ser uma forma de lucro), por servir mercadologicamente.  Posteriormente, desfazer o estrago se torna um percurso muito difícil. Ainda, podemos utilizar o exemplo dos Alfas para retratar a tamanha responsabilidade dos cientistas em analisar seus dados e métodos para que o pior não ocorra. 

As redes estão bombardeadas pela desinformação. Com isso, é necessário usar o bom senso e o senso crítico para não cair em ciladas cibernéticas. Provavelmente, muitos que repercutem as mentiras já têm consciência de seus erros; porém, como os convêm, não sentem a necessidade de cessar. Então, cabe a nós filtrarmos toda essa informação, para o bom uso das redes sociais. 

É necessário filtrar o que é inserido nas redes para que essas bolhas de desinformação não sejam criadas ou alimentadas, para não colaborarmos com um antigo ditado que diz “uma mentira contada mil vezes se torna uma verdade”. A ideia de lobos “Alfa” está quase se tornando verdade -se já não se tornou- com isso, sentimos os efeitos maléficos da desinformação.

 

Luiz Gustavo Kabelo

Uma vida que vale a pena ser vivida

26/12/2023 15h40 | Por: Luiz Gustavo Kabelo

Dentre os diversos caminhos da vida, a estrada que todos ansiamos é aquela que faz a vida fazer sentido, o que nos faz feliz, um caminho que faz sentido ser trilhado e vivido.

Provavelmente você almeja uma vida ideal, que você julga ser melhor para você e sua família, talvez você não pense diretamente com essas palavras, mas provavelmente é um trabalho com bom salário, uma boa casa, talvez algumas viagens durante o ano...você pode pensar até em não trabalhar mais, se aposentar mais cedo. Alguns serão mais vorazes, irão desejar rios de dinheiro, um carro veloz, fama ou serem lembrados por gerações.
 
O problema dessa vida que “vale a pena ser vivida”, por meio de bens de consumo, é que ela nunca chegará! Digo isso porque sempre haverá um carro mais tecnológico, um novo smartphone com mais funções, uma nova viagem para fazer. Mas, é importante lembrar que as casas grandes envelhecem, os carros precisaram ser substituídos, e os smartphones não receberam mais atualizações, tudo de propósito para você ralar mais e voltar às lojas novamente. 

Logo, se cria uma diferenciação daqueles que aparentam ter uma vida que vale a pena e outros que não (claro, tudo de forma teatral, movido por aparências). Com os primeiros buscando assegurar seu lugar e infelizes por estarem ficando para trás, o que vemos são os seus esforços para precarizar o acesso aos itens básicos dos menos abastados.

Dessa forma, vão contra o aumento do salário mínimo, contra a educação gratuita, contra a saúde gratuita, por um motivo óbvio para aqueles que conhecem a boa literatura: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar opressor.”
Assim, para o nosso novo opressor, a vida que vale a pena ser vivida, é aquela que ele o diferencia de alguma forma, e a forma que ele encontra é a mais fácil: a impressa nos outdoors, nos comerciais, no cinema, aquela que foi forjada para ele. Ele se enxerga no carro, nos storys, na marca da bebida -é mais um retrato da educação não libertadora. 

Um ataque se inicia a tudo que é público, se precariza a educação pública para vender matrículas nas escolas privadas, se precariza a saúde, para vender planos de saúde. Faz-se isso para que, cada vez mais, aquele que não tem um salário descente se retire para as margens e para os cantos das cidades.

Se você chegou na vida que vale a pena ser vivida, por que privar o resto de chegar até ela? Por que ficar feliz sozinho? Por que precisa de que o outro não tenha acesso para você se sentir feliz? Não seria este um sinal da educação pouco libertadora?

Se a vida que se deseja é a com pouco trabalho e fartura de dígitos na conta bancária, por que julgar o outro por querer também?

e o salário mínimo é suficiente, se uma jornada onde se trabalha 50 horas por semana, -ou até mais- 6 dias por semana, é uma vida que vale a pena ser vivida, por que você não o faz? Provavelmente o problema maior é ter que aguentar toda essa jornada de trabalho, que não assegura nosso trabalhador de nenhuma forma -nem mesmo da mínima forma - de que aos 70 anos, ele vai conseguir uma vida que vale a pena ser vivida. 

Claro, isto é um exercício, meu caro leitor... eu não ousaria te acusar de tal atrocidade. O que quero expressar aqui é minha opinião de que uma vida baseada no consumo, e na submissão do outro, não é uma vida que vale a pena ser vivida.

 

 

Luiz Gustavo Kabelo

Eu errei

19/12/2023 16h15 | Por: Luiz Gustavo Kabelo

Talvez seja um dos piores pecados dos seres humanos não reconhecer seus erros, achar que, por algum motivo, admitir um erro seja se apequenar. Venho por meio desta admitir um dos meus maiores erros.

Obviamente que reconhecer um erro, muitas vezes, não é o suficiente, mas sim um primeiro passo; depois dessa etapa vem a reparação do prejuízo, que pode ser seguida de um pequeno ato, ou de algo de grandes proporções, de acordo com a dimensão do erro. Felizmente, no meu, caso acredito conseguir amenizar, por meio da escrita contínua desta coluna, o déficit que causei, a mim e a outros.

Provavelmente eu me conforte com o aprendizado que somente a jornada que tracei me fez aderir, também sei que poucos largariam o saudosismo de uma filosofia criada por si para quebrar a cara. Na verdade, o que quero provar é que existe mérito, de alguma forma, em admitir um erro, porque por mais que possa parecer vergonhoso em alguns momentos, também pode ser interpretado como uma evolução.

Essa evolução é vista, não somente, no quesito de desenvolver um pensamento mais arrojado, mas também na inteligência emocional de entender que também erramos, em entendermos que, por certo, nem sempre estamos errados.

Isso pode parecer óbvio para alguns, mas no mundo pós-moderno selvagem, com competição o tempo todo, onde a maioria está sempre mostrando estar sempre muito feliz nas redes, me parece que o óbvio precisar sem dito.

Por muito tempo -começo a admitir meu erro- meu relacionamento com os livros se limitava aos livros teóricos, direto ao ponto: lia o que precisava saber e nada mais. Contos e outras histórias eram tediosas, maçantes! Gostava do que era rápido e prático, apenas o necessário.

Provavelmente, isso era um reflexo da atualidade, em que não podemos perder tempo, tudo tem que ser rápido: vídeos curtos, livros curtos, uma sociedade prática com abordagens práticas, sem subjetividade... algo que, provavelmente, você vivencia na sua vida.

Então, depois de noivar com uma professora de Literatura, vi todos aqueles livros nas estantes, autores famosos e outros nem tanto. Por algum lampejo que não soube muito bem explicar, decidi apreciar um ou dois livros, sem pretensão alguma. Isso foi uma espécie de lazer que me dei, comecei trocando um episódio de série pela leitura.

Acredito que a experiência não poderia ser melhor. Realmente, os livros não eram direto ao ponto, e algumas vezes se tornavam maçantes, mas a recompensa era muito melhor de diversas formas diferentes, já que foi como uma longa caminhada, por vezes o caminho é longo, porém, muito recompensador.

Fez, por vezes, eu repensar a humanidade e a ideia de progresso, porque era simplesmente incrível um escritor russo de dois séculos atrás descrever minuciosamente aspectos da vida que eu vivencio hoje, tanto tempo depois. Cansei de tantas vezes ouvir terceiros falaram de autores, na maioria das vezes difamando-os, por vezes enviesando os seus pensamentos. Então, decidi por ver com meus próprios olhos - uma prática que eu aconselho fervorosamente.

Na verdade, essa coluna talvez seja uma forma que eu encontrei de redenção pelos autores que eu subjuguei. Eles, agora, tornam o meu mundo um lugar com mais sentido e, infelizmente, a maioria já pereceu e terei de me acostumar com a ideia de nunca poder agradecê-los por tanto.

Caso ainda não o tenha feito perceber, aqui escrevo buscando te influenciar a leitura e é claro -não menos importante- te fazer largar de preconceitos, racionalizar o que é trazido por terceiros e pela cultura que nos rodeia.

Também, quero que busque, por conta própria, seus conceitos, para então superar e evoluir. Para isso, sempre será necessário transcender os erros, quebrar a barreira do orgulho e entender que para evoluir é necessário entendermos que erramos. Assim, poderemos não cair em um loop de falhas insistindo em conceitos que não são nada mais que falta de amadurecimento.

Um dos meus erros foi desdenhar a literatura e, com certeza, aparecerão mais. Contudo, quando eu os desvendar, serão incríveis oportunidades para fazer melhor tanto para mim quanto quem está ao meu redor.

 

 

Luiz Gustavo Kabelo

Além do Eu

Luiz Gustavo Pereira é compositor e escritor com dezenas de trabalhos lançados por bandas e sua produtora. É acadêmico de Psicologia e foi um dos fundadores da Liga Acadêmica de Saúde e Espiritualidade (Lasesp) e é membro da Liga Acadêmica de Psicanálise (Lepsic).

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